O papel da literatura na Educação Infantil

Por Israel Boniek

            Hoje, mais do que nunca, estamos inseridos em um mundo repleto de tecnologias no qual as crianças estão excessivamente expostas às telas de televisores, celulares, tabletes e computadores. Esse modo de exposição, devido a sua facilidade no uso e sua dinamicidade, tem dificultado o compartilhamento de modos mais profundos de experiências que exigem certa concentração por parte das crianças, incluindo a leitura, mesmo considerando que as tecnologias gerem outras formas de leitura. No atual contexto, até mesmo entre os adultos, o livro físico tem sido menos procurado. A maioria dos leitores, na busca por informações mais rápidas e facilitadas, preferem o uso das tecnologias como mediação no acesso as informações.

            Contudo, o livro é um importante instrumento no processo de desenvolvimento cognitivo das crianças. Ele oferece suporte para uma pluralidade de experiências e possibilidades na Educação Infantil. Além disso, a convivência com os livros na primeira infância marca o espaço da leitura e da escrita no futuro da criança.

            A leitura é algo amplo que entra na vida das crianças através da voz do adulto e, desde as primeiras canções de ninar, vão se transformando em um patrimônio precioso de apoio aos pais e às instituições de ensino, introduzindo as crianças em um universo de questões que serão partes fundamentais de suas vidas.

            Segundo Rizzoli ( 2005, p. 14), no contato com os livros, “a criança enriquece a história ouvida e se enriquece com todas as fantasias que a história deflagra. Isso é muito importante porque é só com o adulto, só com o relacionamento com outra pessoa, que ela pode desenvolver suas fantasias. Nesse contexto, a atitude do adulto é extremamente importante para que a criança possa se introduzir na história de um livro. Somos sujeitos rodeados por histórias e acontecimentos que, ao serem narrados, ajudam na construção de nossa identidade, e que ao serem recontadas são significadas e criam novas histórias ou novos modos de entender os fatos. Isso porque o ser humano traz consigo a necessidade de contar fatos vivenciados e/ou presenciados e também do mundo imaginário.

            Nesse cenário, a literatura ocupa papel de destaque. Os livros são mediadores educacionais na relação criança-mundo, criança-criança, criança-emoções e criança-adulto, respondendo à necessidade das crianças de, através das histórias, construírem sua autoconsciência e se apoiarem na tarefa de formar seu mundo interior. A literatura e a narração, graças à sua linguagem simbólica e metafórica, são uma forma de teatro psíquico para a elaboração de emoções e conflitos.

            Considerando a importância da comunicação e da linguagem, o uso preciso da leitura no contexto educacional, permite o desenvolvimento de competências para todos os meios de comunicação. Esta habilidade é a base para construir uma infância autônoma e livre na complexa realidade da comunicação social. Daí uma forte responsabilidade pela educação da leitura, um passo fundamental para uma sociedade mais humana e respeitosa.

A literatura antes de ler e o livro na primeira infância

            Quando falamos sobre o livro para crianças nos primeiros dias e semanas de vida, falamos sobre a voz, o rosto e o abraço dos pais e dos educadores. Nesse momento, a relação profunda entre o adulto e a criança é estabelecida (vínculo). A voz que faz vibrar a alma do bebê desde a gravidez, o rosto dos pais e as diversas expressões formam um ambiente emocional para o recém-nascido. Hoje, temos uma oferta ampla de livros ilustrados, livros táteis e livros de canções infantis e rimas para atender essa necessidade. É importante considerar a escolha dos livros, que deve ser bem pensada e adequada à idade e necessidades da criança. Quem trabalha com livros deve conhecer as ferramentas para poder introduzir a literatura nos diversos contextos da criança.

            Um exemplo disso são os livros sem palavras, que a cada dia desfrutam de uma aceitação maior. Devemos conhecer como usar a peculiaridade desses livros que oferecem histórias compostas por imagens acessíveis, até mesmo para quem não se aproxima facilmente da linguagem dos livros. Um livro sem texto não é de forma alguma um livro silencioso, pelo contrário, fala de uma forma muito articulada e pessoal, permitindo uma forma especial de interação.

A importância de se ler sem estereótipos para abrir a mente e a imaginação

            Os estereótipos são grandes limitadores no desenvolvimento do conhecimento literário, ainda que se escondam de forma sutil quando tratamos de livros infantis. Os livros são educadores silenciosos e, para uma educação justa e inclusiva, precisamos de livros que representem a pluralidade humana. Escolher livros sem preconceitos que enrijecem a percepção da realidade significa desbloquear a imaginação. Por isso, é sempre importante cuidar de nossa sensibilidade e refinar nossas percepções.

            A magia e a natureza dos livros infantis está em permitir a exploração da imaginação sob vários pontos de vista e permitir um entrelaçamento entre a experiência e a elaboração narrativa. […] é ouvindo histórias que podemos sentir emoções importantes como a tristeza, a raiva, a irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, o pavor, a insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais, e viver profundamente tudo o que as narrativas nos provocam. (ABRAMOVICH,1997 p. 17).

            A literatura mobiliza recursos subjetivos das crianças que, ao entrarem em contato com as histórias, são desafiadas a imaginar e viver um momento de fantasia, de prazer e de despertar, uma vez que é por meio desses estímulos que desenvolvemos nossa sensibilidade, nossa imaginação, nosso desenvolvimento emocional, social e cognitivo.  […] é através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica…ficar sabendo história, geografia, filosofia, política, sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula […] (ABRAMOVICH, 1997, p. 17).

            Sendo assim, para oportunizarmos experiências literárias significativas, é importante construirmos um ambiente onde a leitura possa ser desenvolvida e incentivada, um ambiente que possibilite a leitura e propicie as interações que ampliem os repertórios e contribua para o desenvolvimento infantil. 

            Por fim, devemos reconhecer a importância das diversas abordagens que podemos fazer do uso da literatura infantil, sobretudo, ressaltar sua decisiva contribuição na formação do futuro leitor; especialmente o leitor literário, uma perspectiva fundamental da experiência estética na vida das crianças.

Na infância, basta um livro para vislumbrarmos um mundo.

REFERÊNCIAS:

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil – gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione,1995.

RIZZOLI, Maria Cristina. Leitura com letras e sem letras na Educação Infantil no Norte da Itália. In: FARIA, Ana Lúcia G & MELLO, Suely A. (orgs.). Linguagens Infantis: outras formas de leitura. São Paulo: Autores Associados, 2005.

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