Ensino remoto e híbrido: a qualidade da relação entre família e escola

 Isabel Parolin

A pandemia nos revelou (ou será que escancarou?), a partir de muitas situações vividas e observadas por todos nós da comunidade educativa, que a relação entre a família e a escola tem sido muito mais de dependência mútua que de parceria, como é o desejável.

Essa constatação preocupa e nos convida a repensarmos não apenas a natureza dessa relação, que inegavelmente é primordial para a formação humana, mas suas fronteiras, que precisam ser reconhecidas por ambas as instituições.

Vamos pensar juntos?

Todos nós, de algum modo, ficamos sabendo, por ter sido amplamente compartilhada, tanto em conversas privadas quanto nas redes sociais e noticiários, as dificuldades que as família e as escolas tiveram com as aulas on-line, que foram desde a falta de desenvoltura para lidar com plataformas, não possuir internet rápida o suficiente para sustentar os APPs, não ter nenhum equipamento interativo, sentir-se intimidado em frente às câmeras, número de pessoas usando/gastando o pacote da internet, não ter equipamento adequado e local propício ou suficiente para todos da casa, até a impossibilidade de acessar as aulas (no caso dos alunos) por falta de disciplina doméstica que facilitasse a escola em casa.

Outro aspecto, também observado ao longo do ano letivo de 2020 e no início de 2021,  foi que muitos familiares tomaram para si a responsabilidade da escola em casa, não proporcionando o aprendizado que essa novidade trouxe em si, além de inviabilizar o desenvolvimento da auto regulação. Em paralelo a esse fenômeno, constata-se que muitas famílias desconhecem como uma pessoa aprende (esse desconhecimento é esperado), ou ainda, não têm tempo, paciência, disponibilidade, desejo para ajudar o estudante a organizar-se para a escola que chega até a casa, na aula virtual.

“Eu não sou professora, não sei ensinar!”Ela/e não entende, não faz as tarefas e eu não sei o que fazer para ajudar!” “Eu não sei essas matérias, não posso e não tenho tempo de ajudar ou fazer as tarefas!”. “Eu não estudei, como vou ajudar”? “Essas aulas estão me enlouquecendo, não sei mais o que fazer.”

As tentativas frustradas de ajudar o estudante, baseadas no desconhecimento de como acontece o processo de aprender, geraram um clima emocional desfavorável, muito estresse, desperdício de tempo e ineficiência. O fato é que não era/é para as famílias assumirem essa tarefa de assistir ou mediar a aula entre seus filhos e seus professores. O papel da família é garantir uma rotina que responsabilize os alunos a exercer o papel de estudante, que significa estar pronto para cumprir com o que seja necessário: participar da aula, ligar a TV ou o computador, perguntar quando não entende, enfim, acionar as estratégias disponíveis para se fazer presente na aula. Esses depoimentos nos fazem concluir que a família depende da escola como organizadora da aula em casa, porém a escola, igualmente, depende da atenção da família para organizar estudantes em casa.

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A aula em si não garante aprendizagem!

Essa situação gerou uma dependência enorme da escola em relação à ação da família: que ela ligasse o equipamento ou fosse buscar na escola as propostas de atividade, que ela acordasse a criança ou jovem para a aula. Foi tão séria essa constatação, que muitas cidades colocaram carro de som convocando as famílias a colaborarem, viabilizando a escola em casa. Inúmeras reuniões foram realizadas para orientar familiares. Claro que as crianças muito pequenas dependem de seus educadores. O fato é que, enquanto crianças e jovens dormiam em seus sofás ou suas camas, a aula acontecia nas TVs ou nas plataformas, professores e alunos perdiam a preciosa oportunidade de ensinar e aprender.

Reafirmo: não se espera que os familiares ensinem os estudantes e, sobretudo, a escola não deve esperar esse trabalho da família. Porém, é fundamental garantir a aprendizagem.

Não vamos avaliar, nesse breve artigo, a qualidade das propostas educativas que estavam sendo oferecidas, nem as metodologias, pois constatou-se também que muito do desinteresse dos alunos se deu num clima emocional de frustração, por não sentirem-se pertencentes e motivados. “Essas aulas não têm nada comigo. Sei lá o que é isso que o professor está fazendo.” “Muita chatice.” Para piorar o cenário, muitas escolas, despreparadas, replicaram metodologias do ensino presencial, que já eram questionáveis, para as aulas on-line, tornando ineficaz e cansativo para todos os envolvidos no processo de ensinar e aprender.

Muito estresse e exclusão foram produzidos.

Espera-se que professores conheçam seus alunos, a qualidade de suas produções, as possibilidades e limites, porém muitos tiveram dificuldades para integrar tudo o que estava acontecendo consigo, com os estudantes e familiares, por terem focado apenas numa dimensão do ser humano e da aula – a cognitiva. Desconsideraram que todos somos afetivos, emocionais, sensíveis, que precisamos conversar, trocar ideias, sensações, sentimentos e que o clima emocional de uma aula se estabelece nas trocas, na reciprocidade, na compreensão e no afeto. Ao não atingirem seus alunos, ao não se auto cuidarem, frente aos horrores e dificuldades que a pandemia nos trouxe, os adultos, quer sejam familiares ou professores, passam a depender, cada vez mais, da ajuda direta um do outro. “Não adianta, ele dorme na aula.” “Ela não para na frente da câmera.” “Eles olham para as lições com uma expressão de que nunca viram aquilo.” Por outro lado, as escolas que promoveram conversas, recreios, salas de bate papos, projetos, a partir do centro de interesses dos alunos, obtiveram muito mais sucesso.

Como seres humanos, temos coisas em comum que precisam ser consideradas, e a conversa afetiva clareia o que nos assemelha e o que nos diferencia.

Outra evidência da relação de dependência entre a família e a escola, sobretudo ao longo da pandemia, foi o valor e a importância do espaço material da escola, como local onde as crianças e jovens ficam em segurança. As famílias necessitam desse espaço para poderem cumprir com suas agendas de trabalho, tanto as profissionais quanto as domésticas e de cuidados.

“Não consigo nem limpar a casa direito, ou é aula de um ou é de outro. Tenho ainda o meu trabalho e, por estar em homeoffice, as crianças não entendem e ficam me chamando pra tudo.“  “Eu trabalho fora de casa e virou uma loucura a minha vida.” “Nunca cuidei das crianças e da casa, sempre foi minha mulher, mas agora ela está tendo que ir trabalhar e eu não. Que super aprendizado.”

Muitas famílias não tinham/têm com quem deixar suas crianças para poderem ir trabalhar, ir ao mercado, etc. Um grupo muito grande de famílias tiveram que deixar seus filhos sozinhos em casa, sem um olhar que cuida: “Chego em casa e eles estão de pijama, sem terem feito nada… É desesperador. A escola precisa voltar, urgente!”

”Local onde se deposita crianças?” Afirmarão alguns. “Esse local não é para isso!” Dirão outros. A dinâmica social e familiar acaba atribuindo também esse sentido de parceria ao espaço escolar. O tempo sem aulas presenciais, ou ainda, a alternância entre aulas presenciais e em casa, mostrou isso. Muitas famílias constataram, por não possuir rede de apoio ou não terem estrutura doméstica que garantisse uma rotina saudável às crianças, o valor da escola presencial em suas vidas.

O espaço da escola, que é objetivo e subjetivo, para muitas das nossas crianças e jovens é o único espaço onde eles têm voz, são ouvidos, acolhidos, sobretudo, onde aprendem sobre o mundo e suas diferentes facetas. Além de viverem e exercitarem a partilha em comunidade, a escola, quer seja física ou virtual, necessita garantir esse espaço afetivo e de desenvovimento.

Sem as aulas presenciais e a mediação dos professores, a qualidade da aprendizagem fica em foco, pois ela acontece quando o aprendiz atribui sentido, dando significado próprio aos conteúdos. A presença física dos educadores da escola, suas experiências de vida, seus saberes fazem desse espaço um lugar previlegiado para aprender. Foi preciso aprender a ser “próximo” dos alunos, mesmo estando on-line.

“Certo, mas o que tenho que fazer, então?” Perguntarão tanto os familiares quanto os professores. Estabelecer rotinas e espaços de conversas entre essas duas instituições, para que se clareiem as fronteiras e se conheça as especificidades e todos aprendam sobre si mesmos e os alunos, seus familiares e suas modalidades de aprender, de ensinar e de bem viver e conviver.

Cada comunidade encontrará o seu jeito de lidar com essa situação e resolver suas dificuldades.

A família, para desenvolver seu papel formador, necessita de uma escola que compreenda a sua dinâmica social e proponha espaços de conversas para aproximação, trocas e desejados entendimentos. Professores, para deflagrarem aprendizagens, precisam intergir com seus alunos, combinar, na medida do possível, que câmeras estejam abertas, microfone livre, que o aluno escreva para o professor quando não entender a proposta e, sobretudo, que o aprendiz se responsabilize diante dos professores e colegas. Ou seja, a família precisa ser orientada a incentivar seus filhos a protagonizarem seu processo de aprendizagem e seus compromissos como estudante; do mesmo modo, professores precisam considerar as diferenças constitutivas de cada um. Mais importante que a resposta correta é saber aprender e identificar o que não aprendeu.

Sobretudo, ressalto o valor da conectividade direta entre a família e a escola, sem colocar os filhos/alunos como intermediários. A resolução colaborativa das dificuldades e as responsabilidades partilhadas são um bom caminho a se percorrer.

A escola é grande parceira da família e sabemos que a família tem na escola um lugar importante para o desenvolvimento de seus filhos e, por isso, precisam se ouvir, conversar. Cabe a nós educadores a responsabilidade de construir uma comunidade que seja respeitosa, inclusiva, empática e boa para todos.

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