Educação para todos: a inclusão da criança autista na escola regular

Por Brink Mobil

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda é um mistério para muitos, por se manifestar de inúmeras maneiras, em três diferentes graus de intensidade. Por essa razão, é comum que os sintomas criem divergências entre os profissionais da Saúde, o que acaba retardando o diagnóstico. Essa condição neurológica ocasiona déficit em três áreas do desenvolvimento: comunicação, interação social e comportamento. Embora o Autismo possa também estar relacionado à deficiência intelectual, por outro lado, casos mais leves costumam estar associados à inteligência média ou acima da média.

Se interagir com o outro e receber novos estímulos pode ser incômodo para o aluno com TEA, o que fazer para tornar sua presença na escola saudável e prazerosa? Grande parte dos pais de crianças autistas acreditam que o caminho não é manter o filho dentro de uma bolha, isolado em sua individualidade. Mas, sim, estimulá-lo a interagir. E é incluindo essa criança na escola que ela terá a oportunidade de aprender a conviver com seus pares, ao mesmo tempo em que desenvolve suas potencialidades de forma plena.

Frequentar a escola regular não é só benéfico para o desenvolvimento do aluno com autismo, mas um direito garantido por lei. Em 2007, o Ministério da Educação aprovou a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva para garantir o acesso à escola e à aprendizagem aos estudantes com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades. No entanto, lacunas nessa lei não esclarecem que o autismo é considerado uma deficiência, o que levou à criação da Lei 12.764, cinco anos depois, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A partir daí, todo o direito reservado à pessoa com deficiência passou a contemplar também a pessoa com autismo.

No entanto, não basta que a inclusão do aluno autista seja obrigatória por lei. É preciso que a escola esteja preparada para recebê-lo e, para isso, deve acontecer, além da capacitação de professores, uma mudança na cultura escolar, num sentido mais amplo. A escola, como uma instituição regida por regras e limites, ao receber um aluno autista, pode confundir seu comportamento com desinteresse ou incapacidade de aprender, o que impede a realização da inclusão de maneira satisfatória, em que ocorra efetivamente a aprendizagem.

Mesmo após a aprovação das políticas de inclusão, casos de rejeição de matrícula ou de pedidos de afastamento de alunos autistas continuam acontecendo nas escolas brasileiras. À exemplo do que ocorreu, em 2019, com o filho da Mery Ellen Hidalgo de Matos, que é mãe de três meninos, dois deles diagnosticados com autismo. A família já buscava ajuda especializada desde os primeiros sinais de comportamento dos filhos que indicavam um padrão fora da “normalidade”. Aos 7 anos, o filho mais velho da Mery começava em uma nova escola, depois de já ter passado por outras duas instituições. A mudança coincidiu com a confirmação do diagnóstico de autismo e altas habilidades.

“Mesmo à par do diagnóstico, a escola nunca aceitou que precisava fazer adaptações, tanto pedagógicas quanto ambientais, assim como não acatava as recomendações dos profissionais que atendiam nosso filho”.

Passados três anos de uma rotina escolar desgastante, a escola convocou os pais da criança, então no 6º ano do Ensino Fundamental, pedindo seu afastamento definitivo.

Episódios como esse são mais comuns do que se imagina, e demonstram a necessidade de treinar e capacitar toda a equipe escolar para receber alunos com Autismo, criando uma rede de apoio em torno do professor. Ele, que é a peça-chave para o sucesso escolar das crianças com necessidades especiais, mas que não pode, sozinho, realizar esse trabalho.

“Ele vai pra escola”

Dessa vez, a família adotou uma posição diferente. Ao invés de sair em busca da próxima escola, decidiu ficar – até porque essa era também a vontade do filho. A mãe, Mery, moveu esforços para reunir os professores e toda a equipe que acompanhava a evolução do menino (entre psiquiatra, psicopedagoga, neuropsicóloga e terapeuta ocupacional); todos munidos de informações para desmitificar o transtorno e ajudar a equipe escolar a enxergar as necessidades de uma criança autista.

A iniciativa da Mery resultou em mais empatia e acolhimento por parte da escola, onde seu filho continua matriculado até hoje.

A experiência junto aos professores mostrou a essa mãe que a informação pode ser uma ferramenta de transformação. Foi então que ela decidiu abraçar a causa do filho, dando início a um trabalho de conscientização sobre o transtorno, com a criação da fundação IGUAIS. Junto com ela, veio o projeto “Ele vai pra Escola”, voltado à inclusão escolar, crucial para a conquista de oportunidades iguais, visto que a escola é o lugar onde a criança passa boa parte de seus dias e cria suas primeiras relações sociais.

“Nosso objetivo sempre foi combater o preconceito por meio da informação. Para isso, criamos materiais informativos como panfletos, adesivos, outdoors e participamos de entrevistas sobre o assunto… Não imaginávamos a dimensão que isso tomaria! Estamos muito felizes em poder contribuir para romper as barreiras da inclusão”, conta Mery.

O próximo passo do projeto é distribuir uma cartilha com informações essenciais e promover workshops sobre o Autismo para os docentes da rede pública e privada.

Trabalho em equipe

O professor deve estar consciente do seu papel ao iniciar o processo de inclusão de uma criança autista.  Mas somente um professor preparado e com conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista vai conseguir estimular a autoconfiança do seu aluno, lhe inspirar confiança e exaltar seus pontos fortes e habilidades em potencial. Por isso, se faz tão fundamental a comunicação contínua entre a equipe terapêutica e a escola.

Reconhecendo a importância de capacitar os professores para uma inclusão bem-sucedida, o Instituto AutismoS realiza um trabalho junto aos profissionais da educação, contando com voluntários que levam conhecimento sobre o TEA. De acordo com a gestora operacional do Instituto, Juliane Santa Maria, os profissionais que avaliam o paciente com Autismo de forma individual são fundamentais tanto para a evolução do indivíduo, num aspecto geral, como para facilitar a inclusão no ambiente escolar, fornecendo subsídios para que a instituição possa adaptar materiais e atividades, garantindo assim a permanência do aluno autista em sala de aula, assim como o pleno entendimento daquilo que está sendo comunicado pelo professor.

Juliane ressalta ainda alguns pontos importantes a serem observados pela escola que recebe um estudante com autismo: “É preciso adotar rotinas claras, estar atento aos estímulos do ambiente e à postura das pessoas que convivem diretamente com o aluno autista”.  

Uma atitude diferenciada diante desse aluno é um desafio para um professor que não foi treinado para tal, uma vez que ele está habituado a um padrão de comportamento e interação entre as crianças da faixa etária para a qual ensina. No entanto, no que se refere à aquisição dos conteúdos acadêmicos, não é novidade que cada aluno tem o seu ritmo para aprender e maior facilidade em uma matéria do que em outra.

Estudos da Neurociência comprovam que os indivíduos têm preferências por certas áreas sensoriais; uns aprendem melhor escutando, outros lendo, outros executando projetos…Por esse motivo, estímulos personalizados deveriam ser uma prática constante na educação – não só para atender alunos com necessidade especiais.

Segundo a psicoterapeuta e psicomotricista Carolina Horst, a intervenção psicopedagógica tem por objetivo investigar as dificuldades do paciente autista no processo de aprendizagem e identificar de que modo ele aprende. E no caso da maioria dos autistas, o aprendizado ocorre por estímulos visuais.

A atuação de um psicopedagogo junto à comunidade escolar auxilia o professor tanto a enxergar essas particularidades quanto a buscar formas de atuação e definir metodologias que permitam que seu aluno autista também aprenda. “A psicopedagogia visa possibilitar novas formas de ver a educação; apresentar novas abordagens a respeito da aprendizagem escolar e promover outras formas de acesso ao conhecimento”, acrescenta Carolina.

Essas novas abordagens exigem um esforço coletivo da comunidade escolar e perpassam adaptações curriculares que envolvem mudanças tanto na maneira de ensinar como nos objetivos, critérios e modos de avaliar os alunos. As avaliações padronizadas, que focam somente no resultado e ignoram o percurso pedagógico do aprendiz, cada dia perdem mais o sentido.

“Deve-se valorizar todo o conhecimento e o repertório de habilidades que o aluno autista traz do seu mundo, considerando suas experiências e respeitando suas limitações”, finaliza a psicopedagoga.