Educação midiática na era da (des)informação

Aula de educação midáiática

A educação midiática não é assunto novo, mas se faz urgente nesse cenário em que estamos vivendo, especialmente no que se refere à comunicação digital. Ensinar crianças e adolescentes a identificar uma notícia falsa ou tendenciosa é fundamental para o plena exercício da cidadania.

É enorme a velocidade com que as fake news se espalham pelas redes sociais e pelos aplicativos de mensagem, sem qualquer análise sobre a sua veracidade, o que contribui para o aumento da desinformação. Por isso, é tão importante o trabalho que vem sedo realizado pelas agências de checagem de notícias na internet, para desmentir notícias falsas – as tão recorrentes fake news – numa verdadeira batalha contra as informações conflitantes sobre o coronavírus e a vacinação.

Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016, 20% dos brasileiros confiam nas notícias on-line e 14% acreditam na veracidade do que leem nas redes sociais. O perigo disso é que, quando expostas a uma só versão dos fatos, as pessoas tendem a tomar um único posicionamento como verdade absoluta. Esse fenômeno é chamado de bolha informacional.

É comum que as buscas por informação na internet coloquem os usuários dentro dessa bolha, já que algoritmos os conduzem a informações que confirmam o que eles já acreditavam, uma vez que se baseiam em seus hábitos e pesquisas na rede.

É fundamental, portanto, buscar veículos midiáticos com diferentes ideologias e visões, para que então, conhecendo todos os lados da informação, o cidadão forme sua própria opinião. E tal habilidade pode ser ensinada na escola, começando pelas crianças do Ensino Fundamental.

Essa é a proposta da educação midiática: formar consumidores de informação desconfiados, críticos e atentos, como também prepará-los para produzir e compartilhar informação de forma ética e responsável. Essas virtudes são fundamentais em tempos de liberdade de expressão, especialmente no meio digital, onde todos podem ser produtores e replicadores de fatos e opiniões.  

A educação midiática na escola

A formação midiática hoje é tida como requisito básico para o exercício da cidadania. Um jovem letrado para as mídias (o que vai muito além de interpretar uma notícia), é um jovem que saberá votar com responsabilidade. No entanto, nas escolas brasileiras, essa formação ainda caminha à passos lentos. A boa notícia é que muitas organizações têm colocado os holofotes sobre o assunto, assim como promovido ações de apoio à formação do professor.

Como o Instituto Palavra Aberta, parceiro da Unesco e outras organizações de educação e jornalismo, que tem como objetivo promover a educação midiática dos jovens brasileiros. Com o programa Educamídia, fundado em 2019, o instituto disponibiliza em uma plataforma digital conteúdo para formação e pesquisa para gestores e educadores, além de recursos alinhados à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), como planos de aula e sugestões de atividades. Confira na plataforma o Guia da Educação Midiática, um material de acesso gratuito, essencial para ensinar educação midiática!

Jornalismo e educação

A BNCC considera a abordagem de elementos do Jornalismo durante a Educação Básica, relacionados ao ensino da Língua Portuguesa. Mas a educação midiática não precisa – e nem deve – ficar restrita às aulas de línguas, nem mesmo ser trabalhada como uma disciplina isolada. A informação midiática perpassa todas as áreas do conhecimento, podendo ser conectada à projetos em todas as disciplinas curriculares.

Como por exemplo, em uma aula de Geografia, o professor pode apresentar uma entrevista com um terraplanista, para expor seus argumentos, paralelamente à uma reportagem que aponte provas científicas de que a Terra é redonda.   

Ser capaz de diferenciar os diferentes gêneros jornalísticos – como artigo de opinião, reportagem, entrevista, etc – comparar notícias sobre o mesmo tema em diferentes veículos ou diferentes mídias, percebendo os variados enfoques e posicionamentos em cada uma delas, faz parte do chamado letramento midiático. 

A prática jornalística pode ser explorada de inúmeras maneiras, como por exemplo, a partir da análise de um conjunto de reportagens. O professor pode lançar alguns questionamentos para a turma:

  1. Qual a pergunta que o jornalista pretendeu responder?
  2. Por que ele quer comunicar esta mensagem e para quem?
  3. Como o jornalista fica sabendo dos acontecimentos que ele relata?
  4. Quem (ou o que) ele consulta para produzir a notícia?
  5. Como ele organiza a reportagem?
  6. Há algum sentido na hierarquia ou diagramação da informação?

Essas reportagens podem ser selecionadas em qualquer mídia – um jornal ou revista, sejam impressos ou digitais, telejornal, noticiário de rádio, sites de notícia, entre outros. O que importa é que o formato e linguagem do material sejam apropriadas à faixa etária com que será trabalhado. As mídias tradicionais, por vezes podem não atrair as crianças e adolescentes, o que levou o jornalismo infantojuvenil a publicar informações com uma linguagem adaptada a esse público. Que tal apresentar um desses veículo para os alunos?

Produzir seu próprio conteúdo informacional também é uma maneira de estimular a participação dos alunos dessa geração, que mesmo antes de aprender a ler e escrever,  já foi apresentada às tecnologias. Colocar-se no lugar da mídia é uma prática que cria engajamento, curiosidade para explorar as ferramentas disponíveis. O melhor é que as tecnologias estão na palma de nossas mãos e permitem colocar atividades como essa em prática, sem a necessidade de investimentos por parte da escola. Somente com um celular, é possível produzir vídeos, textos para um blog, podcasts, relacionados a temas de qualquer disciplina. As possibilidades são infinitas!