Como trabalhar as competências socioemocionais na escola?

Por Brink Mobil

Ansiedade, tensão e insegurança estão entre os sintomas que mais atingem os estudantes brasileiros, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na hora de falar em público, apresentando um trabalho ou manifestando sua opinião na sala de aula, em momentos de pressão como uma prova, esses sentimentos se potencializam. E as emoções negativas não prejudicam somente o desenvolvimento emocional das crianças e jovens, mas também impactam o aprendizado.

Você sabia que trabalhar competências socioemocionais com os alunos melhora seu desempenho escolar? É comprovado que, quando o aluno tem autoconhecimento para reconhecer seus pontos fortes e lidar com os pontos fracos, ele tem maior habilidade para enxergar o erro como um caminho para o aprendizado e de persistir para aprender um conteúdo que considera mais difícil.

Por isso, é tão importante abordar competências socioemocionais em sala de aula. Ensinar as crianças e jovens a identificarem e administrarem as próprias emoções também é um meio de evitar conflitos e situações de bullying, pois, ao se estabelecer um clima de respeito, empatia e cooperação, o relacionamento entre os alunos melhora.

Não é de hoje que se fala em educação socioemocional, porém, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) colocou o tema sob os holofotes, desde a sua homologação, em 2018. Entre as dez competências gerais previstas pelo documento, visando as habilidades, atitudes e valores essenciais para a vida no século 21, estão importantes componentes socioemocionais: autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; responsabilidade e cidadania.

A BNCC chama atenção para o fato de que não há mais espaço para a escola puramente conteudista, excessivamente focada no bom desempenho em avaliações diagnósticas que compõem a nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

As habilidades cognitivas para a aprendizagem dos conteúdos curriculares ainda são importantes, mas não garantem, por si só, a formação integral, que prepara o aluno para a vida adulta. No mercado de trabalho, por exemplo, um profissional pode até ser contratado pelos conhecimentos e experiências que carrega no currículo, mas certamente não alcançará um bom desempenho profissional se não tiver inteligência emocional para lidar com tensões, solucionar problemas e ter uma boa relação com as pessoas ao seu redor.

Competências socioemocionais na BNCC

É possível educar as crianças emocionalmente desde a Educação Infantil, promovendo a chamada alfabetização emocional. Ao dar nome aos seus sentimentos e emoções, as crianças são capazes de expressar melhor cada um deles, seja por meio da fala, gestos ou desenhos.

O trabalho durante a primeira infância perpassar os sentimentos individuais: um dos cinco campos de experiência definidos pela BNCC para essa fase é “O Eu, o Outro e o Nós”, que prevê que a criança também aprenda a respeitar o próximo, compreender ações e efeitos, para agir com responsabilidade.

Esse aprendizado se estende por todo o Ensino Fundamental, podendo tomar como referência as cinco principais competências a serem trabalhadas com crianças e jovens durante a Educação Básica, de acordo com a instituição norte-americana CASEL (Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning): autoconsciência, autogerenciamento, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável.

Não é à toa que essas habilidades são denominadas socioemocionais (e não sociais/emocionais), afinal elas são interdependentes, uma vez que um bom relacionamento com o outro começa pelo autoconhecimento, ou autoconsciência, e pelo gerenciamento das próprias emoções.

Ao identificar suas forças e limitações; administrar sensações negativas e controlar impulsos, adquirimos autoconfiança e autoestima. Assim, somos capazes de exercitar a empatia, cooperar com os demais, bem como solucionar conflitos de modo respeitoso e tomar decisões levando em conta

O autoconhecimento tem uma forte ligação com o Projeto de Vida, definido pela BNCC como um dos pilares da Educação Básica. Desde o Ensino Fundamental, o professor deve propor atividades que ajudem o estudante a compreender seu papel social, processo esse que será concretizado no Ensino Médio, quando o jovem já está preparado para refletir sobre suas habilidades, gostos e dons, bem como suas possibilidades de atuação profissional.

A educação socioemocional na prática

Não faz sentido trabalhar as competências socioemocionais de maneira isolada ou como uma aula especial, mas sim integrada a todas as áreas do conhecimento. Numa aula de História, por exemplo, o professor pode abordar o Apartheid, na África do Sul, falando menos de datas e mais sobre a resiliência de Nelson Mandela e o impacto de suas ações para o desfecho de tal evento histórico.  Já o professor de Ciências pode ensinar sobre o uso adequado dos recursos naturais, consumo consciente e sustentabilidade, abordando a importância da mobilização e participação democrática na busca do bem-estar coletivo, bem como o papel dos cidadãos na sociedade como um agente de transformação.

O educador pode lançar mão de metodologias como a educação por projetos para o desenvolvimento emocional dos estudantes. Ao atuar como mediador, nos trabalhos em grupo, o professor tem o papel de valorizar as potencialidades de cada aluno, respeitando suas singularidades, assim como de incentivar a cooperação e a reciprocidade entre os colegas.

Muitos podem pensar: “Mas não deveria ser dever da família ensinar as competências socioemocionais?“. Também é. Porém, não podemos deixar de levar em conta a atual estrutura social, em que muitos pais estão fora de casa trabalhando, enquanto os filhos passam boa parte do tempo na escola. Assim como, dentro de muitos lares, a criança não é acolhida ou não recebe a validação que precisa para desenvolver sua autoestima e autoconfiança. Não é raro que a criança sem a atenção que necessita da família expresse sua insegurança na escola, em forma de rebeldia e indisciplina.  Nesse cenário, a figura do professor pode ser aquela que vai acolher e suprir as necessidades emocionais dessa criança, para que ela acredite no seu potencial para realizar o que quiser.

Para ser capaz de desempenhar esse importante papel, o educador deve desenvolver essas competências em si mesmo para que entenda o impacto das emoções na aprendizagem. Suas atitudes diante da vida são uma referência para o aluno: a forma como estimula a autoconfiança da turma, lida com os conflitos e cria uma atmosfera acolhedora em sala de aula.

Geralmente, o professor não tem a oportunidade de desenvolver a inteligência emocional em sua formação, já que os cursos de Licenciatura não abordam essa competência. Por isso, a escola deve sempre priorizar a formação do professor, antes mesmo de adaptar seus currículos e processos de ensino-aprendizagem.

Já pensou em como a equipe docente pode desenvolver inteligência emocional? Uma escola que promove conversas, leituras e cursos em torno do tema, ou até mesmo incentiva a prática da meditação, tem professores mais preparados para tornar as competências socioemocionais parte do dia-a-dia da escola.