Timidez na infância: quando é hora de se preocupar?

A cena é clássica: é só professora chamar para ler em voz alta que grande parte da turma baixa a cabeça e se esconde atrás do caderno. A timidez na infância faz parte do desenvolvimento social. Estudos mostram, inclusive, que ela é absolutamente comum: de 75 a 95% das pessoas relatam que pelo menos uma vez na vida se sentiram tímidas. Contudo, até quando a timidez é aceitável e quando pode comprometer o desenvolvimento?

Primeiramente, é preciso explicar que nem todo sinal de retração é timidez. De acordo com a psicóloga clínica Lilian Sacagami, especialista em terapia cognitivo comportamental, retrair-se num primeiro momento é absolutamente compreensível. Isso porque os próprios adultos ensinam este comportamento às crianças. “Se a gente for pensar, a criança é criada em segurança com os adultos. E quando chega algo ou alguém estranho, ela busca segurança no que é conhecido”, explica Lilian. Mesmo superada a barreira do desconhecido, porém, algumas se mantêm mais recolhidas que outras. E é assim que se reconhece a timidez.

Traço de personalidade

A timidez na infância, quando em excesso, pode comprometer o desenvolvimento e as relações sociais.

“A timidez na infância é um traço de personalidade. Normalmente, inicia como uma inibição e se transforma numa timidez”, explica a Tatiana Nodari, psicóloga cognitivo comportamental pós graduada em Neuropsicologia e Psicomotricidade e mestre em ensino nas Ciências da Saúde. Conforme Tatiana, na faixa dos 2 ou 3 anos de idade, é mais fácil associar esta timidez à uma origem biológica. Mas a partir dos 8 ou 9 anos, é possível afirmar que a criança se tornou tímida, seja por uma tendência ou por influências externas. 

Em um primeiro momento, a timidez na infância vem acompanhada de uma falta de habilidade social. “O que se vê é um perfil envergonhado. Há o medo de se expor, até mesmo uma certa desconfiança em relação ao outro”, explica Tatiana. E apesar de não ser vista como um transtorno, é preciso ficar atento caso ela evolua para algo que prejudique a criança em suas relações ou aprendizado.

Quando, por exemplo, a timidez compromete o rendimento escolar, é um sinal de alerta. Isso porque a vergonha excessiva pode fazer com que a criança deixe de apresentar trabalhos, evite participar das aulas ou até mesmo não consiga fazer amizades. Além disso, o comportamento pode dar início a um ciclo vicioso. Nele, a timidez vai isolando ainda mais a criança ou adolescente.

“Quando a área de socialização é afetada e aparecem os quadros de ansiedade, solidão e sentimento de abandono, é preciso ficar alerta”, recomenda Tatiana. Segundo ela, não são raros os casos de timidez na infância que podem evoluir para depressão ou fobia social. Há, inclusive, relatos de crianças que desenvolvem sintomas somáticos, como sudorese e taquicardia. Nestes casos, ela indica que os pais procurem ajuda profissional.

Evite rótulos

Um dos primeiros passos para evitar que a timidez na infância se transforme em um problema é não super valorizar essa característica, orienta Lilian. Segundo ela, muitos adultos acabam fazendo brincadeiras que podem constranger as crianças. “Muitos, na tentativa de quebrar o gelo, falam ‘o gato comeu sua língua?’, intimidando ainda mais a criança”, explica. Da mesma forma, muitos pais acabam rotulando a criança. “Dizem ‘ela é assim mesmo, não fala’, o que acaba reforçando o comportamento”, alerta.

Neste sentido, ela adverte que ao invés de darem rótulos, os adultos podem estimular (sem forçar) pequenos avanços. “Ao invés de mandar a criança dizer ‘oi’, podem ensinar a ela, por exemplo, que dar um ‘tchauzinho’ para cumprimentar as pessoas é o suficiente”.

Um passo de cada vez

Fazer pequenos avanços é sugerido quando se fala em timidez na infância. Um ponto em que os pais podem ajudar muito é fazendo o enfrentamento lógico de forma gradual. Ou seja, colocar os desafios como em uma escada. “No primeiro degrau, algo que a criança dá conta de fazer e, lá no último, o que é mais difícil. E ir subindo aos poucos”, explica Tatiana.

Além disso, Lilian sugere aos pais e professores que conversem com a criança para entender as causas da timidez, para assim tentar ajudá-la a vencer as barreiras. “Por exemplo, se há dificuldade em enfrentar muitas pessoas, os adultos podem propor que ela comece se apresentando a grupos menores”, sugere.

E ambas concordam que cabe aos pais aceitar a timidez na infância como uma característica e não um problema. “Até mesmo porque não podemos afirmar que uma criança tímida vai se transformar em um adulto tímido”, finaliza Tatiana.

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