Os jogos e o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático

Por Ana Ruth Starepravo

É difícil encontrar uma criança que não goste de jogar. O jogo costuma despertar interesse e chamar a atenção de crianças de diferentes idades. Além de proporcionar divertimento, ele pode ser um grande aliado no desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático. A seguir vamos entender o porquê.

Os jogos se constituem como contextos muito rico para o desenvolvimento e a aprendizagem porque colocam os jogadores em constante situação de resolução de problemas. Para resolver os problemas apresentados nos jogos, os alunos levantam hipóteses, testam sua validade, modificam seus esquemas de conhecimento e avançam cognitivamente. Mas os ganhos vão além do âmbito cognitivo, porque quando jogam as crianças se deparam com regras e se envolvem em conflitos, já que precisam coordenar suas ações com as dos outros. Esses conflitos são importantes para promover conquistas sociais e desenvolver a autonomia.

O potencial de um jogo – do ponto de vista da aprendizagem – está diretamente relacionado à quão interessante e desafiador ele seja para os jogadores. Além disso, sua dimensão lúdica está justamente no fato de ser uma atividade que tem um fim em si mesmo, ou seja, quem joga o faz pelo prazer de jogar, pela satisfação que aquela atividade lhe proporciona (ainda que possa ser difícil e até mesmo gerar frustração). Assim, quando usamos jogos na escola, precisamos estar atentos para não  comprometer a sua ludicidade, reduzindo-o a uma atividade de “treino” ou uma atividade para exercitar conceitos ou habilidades anteriormente aprendidas. Os jogos podem promover aprendizagens quando apresentam situações novas, quando exigem das crianças a coordenação de diferentes relações e quando permitem que levantem e testem hipóteses.

 A gama de jogos disponíveis é enorme, há opções para todos os gostos. Os clássicos, como Xadrez e Dama, perpassam várias gerações e podem promover o desenvolvimento de habilidades importantes do raciocínio lógico-matemático. No momento em que a criança joga uma partida de xadrez, por exemplo, ela relaciona diferentes tipos de conhecimento e estabelece relações entre eles. Para ganhar uma partida, é necessário criar estratégias considerando diferentes possíveis jogadas do adversário. Dessa forma, ao jogar fazemos antecipações, analisamos resultados, e reajustamos estratégias quando a jogada do adversário não corresponde ao que era esperado ou imaginado. Esse tipo de jogo requer foco, concentração e a capacidade de lidar com situações imprevistas.

Conforme apontado por Lino de Macedo, professor emérito da Faculdade de Psicologia da USP, os jogos conjugam a novidade e a repetição, sendo problema e ao mesmo tempo exercício. As regras são sempre as mesmas, mas cada jogada traz sempre algo de novo em função das interações que os jogadores estabelecem naquele momento.

Nas aulas de matemática, os jogos também podem ser usados como uma importante ferramenta de ensino, pois envolvem habilidades de comparação, classificação, contagem, cálculo e realização de notações numéricas. Diferente de outras atividades que são propostas aos alunos na escola, nas quais a necessidade de solução está fora do sujeito, os problemas que enfrentam ao jogar se constituem em desafios genuínos, sendo assim muito mais significativos: é necessário resolvê-los para continuar participando da atividade, para fazer mais pontos, para controlar a pontuação, para ganhar do adversário.

Ao propor um jogo, é necessário que o professor tenha clareza sobre os objetivos de aprendizagem e sobre as noções matemáticas nele envolvidas. É necessário ainda, romper com a ideia de que os conteúdos matemáticos devem ser primeiro ensinados aos alunos (por meio de explicações) para que só depois sejam aplicados. Precisamos compreender que os alunos se apropriam de noções matemáticas na medida em que as utilizam como instrumentos para resolver problemas. Até mesmo as regras do jogo, que precisam ser apresentadas anteriormente para que uma partida seja possível, são assimiladas gradativamente pelos alunos enquanto jogam.

Jogar constitui uma atividade diferente daquelas que habitualmente são realizadas na escola e por isso mesmo oferece às crianças a oportunidade de usarem estratégias diferentes daquelas “socialmente validadas pela escola”. Muitas crianças que utilizam a matemática em seu dia a dia, sentem-se incapazes de aprender a matemática escolar porque não conseguem obter um bom desempenho na escola, isto é, não conseguem compreender os algoritmos e as fórmulas que a escola ensina. Muitas vezes exige-se que todas as crianças usem os mesmos procedimentos de cálculo e de solução para os problemas matemáticos. Essa rigidez no ensino desconsidera que os alunos são diferentes e que podem ver as situações que lhes são apresentadas sob óticas bem diferentes e por isso acaba desencorajando o pensamento independente dos alunos. No trabalho com jogos, o objetivo é justamente o de incentivar o pensamento independente, a autonomia intelectual, que vai muito além da memorização e aplicação (ainda que correta) de regras ensinadas pelo(a) professor(a).

Aprender matemática pode não ser uma tarefa simples, muito menos fácil, para boa parte das crianças, mas ela pode sim ser prazerosa, desafiadora, instigante e divertida. Os jogos são importantes aliados nesse trabalho e constituem um ótimo recurso para pais e professores. Jogando se aprende e muito.