Educar para a liberdade e o protagonismo

Por Israel Boniek

Quem é a criança para nós?

Uma educação humanizada e integral deve ver na criança um ser único, original e irrepetível. Um ser que pode ser pensado, amado, cuidado, instruído e influenciado, mas não definido.

O olhar de um educador atento, encorajador e amoroso ajuda a criança a sentir-se pessoa, a descobrir o que possui, a olhar positivamente para a vida, a construir a sua própria identidade, desenvolvendo uma autoconsciência que não é egocêntrica, mas construída na memória, no diálogo, no encontro e, sobretudo, na responsabilidade humana e na ética.

A educação infantil significa antes de tudo ter no coração consciência das potencialidades de cada criança, sendo assim, o caminho didático-educacional não é, portanto, um caminho único que leva a um alvo único e objetivo, mas um pensamento e um caminho construídos junto com as crianças, modulado de acordo com suas dúvidas, necessidades, acertos e erros. É algo único, subjetivo e processual.

Assim, devemos acreditar firmemente que o que as crianças aprendem não deriva automaticamente de uma relação linear de causa e efeito entre processos e resultados de ensino, mas é em grande parte o trabalho das próprias crianças, suas atividades e o uso dos recursos aos quais são expostas.

As crianças sempre desempenham um papel ativo na construção e aquisição de conhecimento e compreensão. Todo educador é, portanto, chamado a ser um mediador do processo educacional, oferecendo situações, cenários e ferramentas úteis para desencadear processos de aprendizagem.

Para isso, precisamos reconhecer a importância do processo e não do produto final e de ferramentas como a observação dos processos vividos.

Uma educação para o protagonismo deve, desde os primeiros anos de vida, considerar uma escola que busque o educar para o pensar e para a reflexão, um fazer que não é um fim em si mesmo, uma atividade que, mesmo mediada pelo adulto, se transforme em um momento de construção, de partilha e de diálogo, retrabalhada por meio da linguagem, estruturando o pensamento.

Através desse modelo de educação, as crianças podem construir o conhecimento na experiência, tornando o cenário educacional um ambiente de alegria e de descobertas. Assim, é importante que a criança tenha a oportunidade de fazer, construir, desmontar, recriar, mas também de se expressar em suas variadas formas de comunicação. Como exemplo, ao nos explicar o que está fazendo, a criança é obrigada a esclarecer para si mesma sobre as ações e o porquê das ações, comparando experiências passadas, relacionando-as com as novas, reexaminar o que sabia ou pensava que sabia sobre um determinado tema para construir um novo conceito.

Liberdade e disciplina são duas faces da mesma moeda: uma não pode existir sem a outra

A liberdade é um princípio fundamental da educação. Em um ambiente cuidadosamente preparado, rico em estímulos e adaptado às necessidades das crianças, facilmente poderemos trabalhar um processo educacional que considere as próprias disposições interiores da criança para o seu desenvolvimento, permitindo que a criança exerça sua vontade, reflita sobre suas necessidades e direcione suas energias construtivas.

Liberdade, portanto, não significa “fazer o que quiser”, e a criança deve aprender logo que sua própria liberdade tem limites intransponíveis: o respeito, a sociabilidade e a liberdade dos outros.

A ausência de limites e regras, infelizmente não raro em muitas famílias, pode ocorrer no risco de permitir o desenvolvimento de uma criança incapaz de autorregulação, comportamento que quando agravado pode provocar isolamento e agressividade.

Às vezes, isso decorre de um problema básico que é uma visão negativa que se tem do limite. Muitas vezes os pais relutam em estabelecer gestos de firmeza quanto aos limites, não entendendo a importância que isso tem para um crescimento saudável dos filhos. Os limites são necessários porque oferecem uma orientação de conduta e, portanto, geram segurança e confiança nas relações.

Para lidar melhor com esse tema, é importante que os pais tenham consciência da necessidade das regras para organização do aspecto cognitivo, moral e também das emoções das crianças. Considerando que as regras devem ser sempre coerentes, equilibradas, concisas e claras para a criança, formando um ambiente onde a disciplina é aprendida e não imposta, promovendo o desenvolvimento de uma espécie de “autodisciplina”, sem arbitrariedades.

Liberdade e risco

A educação deve considerar o risco como parte e componente essencial de uma infância equilibrada. Devemos aceitar que alianças significativas entre risco e a educação podem ser estabelecidas. O risco deve, portanto, ser visto como uma oportunidade para o crescimento e desenvolvimento das crianças, podendo inclusive, ser um elemento que deve fazer parte do planejamento de um percurso educacional.

Considerando que hoje, muitas crianças, principalmente as que vivem nas grandes cidades, carecem de oportunidades de vivenciar, por meio do risco, as potencialidades e as limitações do próprio corpo. Uma vez que as crianças passavam mais tempo ao ar livre, brincavam nas ruas mesmo em ambientes urbanos, o que lhes permitia lidar com um ambiente não estruturado e inseguro, mas hoje estão privadas dessas oportunidades. Percebemos que estamos no limite oposto: para maior segurança, tendemos a manter as crianças cada vez mais em ambientes fechados (casas, escolas) onde a ansiedade dos adultos muitas vezes limita as experiências externas.

O objetivo do “risco pedagógico” certamente não é expor as crianças aos perigos: o perigo é algo objetivo, vem de fora, e devemos nos defender do perigo, enquanto o risco pode ser algo planejado, “riscos calculados”.

As crianças têm uma necessidade sensorial real de sentir perigo e excitação; isso não significa que o que elas fazem deve ser realmente perigoso, apenas que elas devem sentir que estão correndo um risco. Isso as assusta, mas elas superam o medo.

O importante, portanto, é apoiar a tendência natural das crianças de sondar seus próprios limites e os impostos pelo meio ambiente, para superá-los gradativamente. Dessa forma, as crianças poderão superar os medos de forma independente, ganhar confiança em suas habilidades, fortalecendo a autoestima e a confiança na vida.

Assim, a tarefa dos adultos (educadores, pais, professores) é gerenciar o risco, ou seja, projetar os riscos em uma proposta educacional, observando as crianças enquanto elas exploram. Podemos preparar e modificar o ambiente o máximo possível para atender às necessidades de cada criança, Considerando os ritmos e singularidades das crianças para que se sintam seguras.

Educar para a vida

Uma abordagem pedagógica baseada no protagonismo deve sempre considerar a criança como ativa e capaz. Um sujeito “vivencial”, que aprende no processo, ao se relacionar com o mundo e nas suas experiências. O seu desenvolvimento cognitivo e emocional está, de fato, relacionado às experiências vividas. Diante disso, é fundamental para todos os educadores (pais e professores), o respeito pela infância e por um processo de aprendizagem onde a criança tenha a oportunidade de construir o seu sentido de identidade, integrando as suas singularidades de forma harmoniosa ao relacionar-se com o outro e com o mundo.

Israel Boniek