Consumo e publicidade: como estimular o olhar crítico das crianças

Mesmo a publicidade infantil já sendo proibida no Brasil desde 2014 – resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) trata da abusividade de direcionar propaganda às crianças – , é ilusório pensar que o público infantil ficará totalmente imune, sobretudo com as redes sociais. 

A quarentena e o isolamento social também foram um período complexo para diminuir o acesso às telas e ao consumo. De acordo com um levantamento feito pelo aplicativo de educação financeira Blu by BS2, voltado aos jovens, durante a fase aguda das restrições de circulação, crianças de até 12 anos gastaram 30% a mais do que adolescentes. Games, serviços on-line e delivery de comida foram os principais produtos comprados. 

Segundo o Movimento Infância Livre do Consumismo (MILC), houve uma tentativa das famílias em compensar o momento difícil pelo qual as crianças passaram em 2020 e 2021, com as aulas remotas, contato social restrito e mudança brusca de rotina, com o consumo. Uma vulnerabilidade que foi explorada pelo marketing. 

Assim, o MILC convida os pais a não “jogarem o jogo da publicidade”. Para isso, conversar com as crianças e propor reflexões sobre a real necessidade de um novo brinquedo, além de explicar quais são os objetivos de anúncios publicitários, é um bom caminho para iniciar uma formação crítica desde a primeira infância.

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A escola também pode propor atividades que envolvam o tema, além de evitar ações que estimulem o consumo e deixar a publicidade de fora do ambiente educacional. Dessa forma, uma boa medida é preferir brinquedos educacionais e que coloquem as crianças em movimento. Em maio de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF), reforçou a proibição da publicidade infantil de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de açúcar. 

Além disso, é interessante diferenciar o consumismo do consumo consciente. O primeiro se refere às compras feitas sem propósito e por impulso. Já o segundo está relacionado a comprar algo que será realmente útil e fará diferença na felicidade e rotina da criança. Para isso, é interessante adotar atitudes como: 

  • Doação de brinquedos em bom estado para outras crianças, ensinando a importância da solidariedade. 
  • Propor uma arrumação nos brinquedos e ver o que continua atraente e divertido. 
  • Antes de comprar algo novo, avalie a condição financeira da família e veja se a empresa tem boas práticas. É importante compartilhar essas informações para que a criança assimile isso aos poucos. 
  • Considere sempre a possibilidade de alugar um brinquedo antes de comprar, e ensine para as crianças brincadeiras afetivas que aprendeu na infância. Esse resgate é importante para que se valorize o ato para além do objeto. 

Por que a publicidade é proibida? 

De acordo com a organização Consumo Infantil Não, existem nove motivos pelos quais a propaganda é proibida para crianças: 

1- Marcos Legais. Além da resolução de 2014 do Conanda, o Código de Defesa do Consumidor também defende que a falta de julgamento da criança é um fator do qual a propaganda se aproveita e, portanto, é ilegal. O Estatuto da Criança e do Adolescente  (ECA) também estipula que a fase de desenvolvimento requer garantir o seu melhor interesse em qualquer tipo de relação. Da mesma forma, o Marco Legal da Primeira Infância (de 2016) determina proteção contra pressão consumista. 

2- Prática antiética. Por ser uma fase de formação e desenvolvimento, as crianças ainda estão vulneráveis para avaliar decisões de compra e consumo e, por isso, se aproveitar disso é um problema. 

3 – Ausência dos adultos. Com crianças cada vez mais envolvidas com telas, por consequência, a propaganda ocorre sem mediação. 

4 – Estresse familiar. A publicidade voltada para o público infantil se aproveita do que a organização define como “fator amolação”, o que vence os pais pelo cansaço. 

5 – Erotização precoce. Os anúncios, diz a ONG Consumo Infantil Não, podem estimular comportamentos negativos na fase adulta e encurtamento da infância. 

6 – Estimula a violência. Como o consumo está ligado ao pertencimento, crianças em situação de vulnerabilidade social  podem cometer delitos para ter acesso a bens de consumo. 

7 – Distorce valores. A publicidade acaba dando ênfase à cultura do “ter para ser”. 

8 – Causa doenças. Produtos ultraprocessados e repletos de sal, açúcar e gordura estão diretamente relacionados ao problema da obesidade infantil. 

9 – Não é sustentável. Por fim, o consumo sem reflexão agrava a instabilidade do planeta. Logo, é essencial que se explique, desde pequenas, que suas ações têm impactos coletivos e no meio ambiente. 

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