Como recuperar a aprendizagem prejudicada pela pandemia?

A pandemia colocou as crianças para fora da escola. A necessidade de isolamento social, para evitar a transmissão do coronavírus, obrigou milhões de estudantes a aprenderem longe das salas de aula. Em casa, cada criança estudou de acordo com a própria realidade. Aqui, podemos citar diferenças socioeconômicas, de faixa etária, além do acompanhamento familiar.

Dessa forma, as crianças na fase de alfabetização, entre cinco a nove anos, e as mais pobres estão entre as mais afetadas pela pandemia. Foi o que revelou um estudo recém publicado, da FGV Social, sobre os impactos da pandemia da Covid-19 na educação brasileira.

Segundo a pesquisa, os alunos das séries iniciais, que tinham obtido os maiores avanços escolares nas últimas quatro décadas, foram os mais penalizados durante a pandemia. A taxa de evasão escolar, nesta faixa etária, subiu de 1,41% para 5,51% entre os últimos trimestres de 2019 e 2020. Uma regressão aos níveis de evasão de 14 anos atrás.

Assim, o estudo conclui que a pandemia agravou as desigualdades na educação no Brasil. Dessa maneira, além das crianças em fase de alfabetização, as mais pobres, as que estudam na rede pública e aquelas que vivem em lugares remotos, foram as que tiveram maiores prejuízos na aprendizagem nessa pandemia.

Segundo pesquisa da FGV Social, a pandemia agravou as desigualdades na educação no Brasil. Foto: FreePik.

Cenário de volta às aulas

Em entrevista, o professor Ricardo Vieira da Silva, diretor educacional do Colégio Objetivo de Maringá (PR), propôs algumas ideias de como professores e escolas podem recuperar a aprendizagem prejudicada pela pandemia.

Neste início de ano letivo, é interessante que os professores preparem atividades diagnósticas, para avaliar o nível de aprendizagem dos alunos. No caso das crianças mais novas, essa avaliação pode ser feita com o apoio de atividades lúdicas.

Dessa forma, é possível identificar os estudantes que conseguiram alcançar as habilidades previstas, e os que estão defasados. em casos de que a toda a turma ficou com defasagem, é preciso retomar os conteúdos do ano passado, mesmo que isso signifique um atraso no planejamento de 2022.

Apoio individualizado

A partir das avaliações diagnósticas, é importante adotar um olhar individualizado sobre cada aluno. Isso porque o ensino remoto acentuou as diferenças de aprendizagem. Se por um lado, algumas crianças tiveram apoio da família nesses quase dois anos, outras passaram esse período sem atenção dos adultos.

“A pandemia aumentou a disparidade. Ela já existia, mas hoje é muito maior. Por isso, é preciso fazer um trabalho individualizado, ou em pequenos grupos, de acordo com o nível de aprendizagem dos alunos”, reforça o diretor educacional.

Aqui, a sugestão é desenvolver atividades direcionadas para os alunos com mais dificuldades. Por exemplo, aulas extras no contraturno, e atividades complementares para serem feitas em casa.

Parceria com as famílias

De acordo com Silva, as escolas precisam trabalhar em parceria com as famílias. Aqui, a ideia é que o professor comunique aos pais ou responsáveis como está o desenvolvimento da criança e dê dicas de como eles podem auxiliar neste processo. Neste sentido, podemos citar, novamente, as atividades extras para serem feitas em casa, de preferência, com apoio da família.

“Nós precisamos entender que os possíveis problemas da pandemia não vão se resolver da noite para o dia”, lamenta o diretor educacional. “Algumas pesquisas dizem que os alunos que não conseguiram acompanhar o ensino remoto terão prejuízos de aprendizagem durante toda a vida escolar. Por isso, a escola precisa montar um planejamento de médio e longo prazos”, acrescenta.

Atenção ao emocional

Especialmente os adolescentes se acostumaram com relações virtuais. Dessa forma, segundo Silva, muitos deles enfrentam dificuldades emocionais, no retorno das aulas. Ele cita, por exemplo, alunos com depressão, ansiedade, síndrome do pânico, além de dificuldades para interagir e fazer amizades.

Assim, é essencial que escolas e professores preparem um ambiente acolhedor para receber esses estudantes. Uma ideia é colocar em prática projetos de ambientação e socialização. Além disso, pode ser necessário um cuidado com a sobrecarga de atividades, pelo menos, no início do ano.

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