Como o isolamento social alterou o comportamento das crianças

Tristeza, medo, insegurança, irritabilidade. Essas foram algumas das mudanças notadas no comportamento das crianças durante o isolamento social ocasionado pela pandemia do Coronavírus, com as escolas fechadas e a sociabilidade restrita. Agora, com a volta presencial nas escolas ou no modelo híbrido, compreender os sintomas da privação é o ponto principal para avaliar como auxiliar as crianças a lidar com as consequências do confinamento. 

Conforme afirma o psicólogo do Hospital Pequeno Príncipe, Bruno Mäder, o convívio social é uma dimensão essencial para o desenvolvimento infantil. Assim, a socialização atua como referencial de comportamento no processo formativo. Nesse sentido, as crianças se desenvolvem a partir da regulação natural dos pais, em relação ao acesso, às ordens ou limites estabelecidos pela família, mas é no convívio com outras crianças que o comportamento é moldado e a autonomia é estimulada. 

“Isso é muito bom para a autorregulação das emoções, para que a criança possa lidar com suas emoções sozinha e não depender só do estímulo parental. No entanto, quando restringimos essa experiência, teremos sintomas de baixa autoestima, de vergonha, medo, inseguranças e mesmo irritação”, explica. 

Sintomas mais comuns

Segundo a pesquisa Jovens na Pandemia, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo com mais de 7 mil crianças, mais de 26% delas apresentaram sintomas clínicos de ansiedade e depressão durante o isolamento. As respostas do questionário são para crianças de idades entre 5 e 17 anos.

Irritação e dificuldade de estabelecer rotina

Em relação às meninas, Eliane sentiu mudanças de irritabilidade e dificuldade de estabelecer regras em casa. “Na creche, eles acabam respeitando mais as professoras que os próprios pais, porque tem regras e horários. Mas por mais que a gente tente estabelecer isso em casa, o horário da comida e do sono, ficou tumultuado, junto às demandas do teletrabalho e da casa.” 

As mudanças no comportamento das crianças durante a pandemia são substanciais?

Segundo Mäder, a resposta a essa pergunta depende de como os pais e as escolas vão acompanhar o retorno à interação social. Nesse sentido, esse momento de transição para a retomada das atividades presenciais é determinante. “É importante nessa volta às aulas podermos acompanhar de perto quais são as inseguranças para reaprender a conviver na escola e refazer as relações”, explica. Além disso, o psicólogo propõe alguns questionamentos para tornar essas alterações no comportamento das crianças durante o isolamento mais perceptíveis. 

“É preciso pensar: meu filho ou o aluno está tendo dificuldades? Demonstra alguma tristeza? Alguma insegurança? Irritabilidade? Para podermos dar o apoio necessário.”

Por fim, para perceber essas alterações comportamentais, o psicólogo reforça ainda a necessidade de diálogo e interesse dos pais com os filhos e com a escola. “Por isso, acho fundamental que os pais verdadeiramente se interessarem pelo que a criança gosta e pelo que ela se interessa. Assim, podem acompanhar o desenvolvimento do filho e não serem surpreendidos ou ficarem distantes”, destaca. Conversar com os professores, cobrar por um plano de reinserção e readaptação das escolas, questionar os filhos sobre as inseguranças e expectativas com o retorno, além de buscar estratégias para fornecer apoio às crianças são hábitos que podem ser adotados, por exemplo.

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