Acolhimento emocional é fundamental na volta às aulas presenciais

Por Brink Mobil

O ensino remoto emergencial gerou grande impacto no meio educacional, sem falar no alto índice de evasão escolar que acometeu principalmente as classes mais baixas. A crise sanitária afetou desde as escolas, que tiveram que suspender as aulas e se preocupar com a estabilidade do negócio, até os pais, que precisaram transformar suas casas em escolas. Para os professores, a pandemia gerou um nível de estresse sem precedentes, devido à pressão para repentinamente adaptar-se as tecnologias digitais e adequar seu plano de aula ao formato remoto.

Nesse momento, em que o MEC, as secretarias e as escolas discutem protocolos e modelos de ensino para retomar as aulas presenciais, é preciso planejamento para trabalhar as muitas questões emocionais trazidas para dentro da escola.  

Alguns membros da comunidade escolar podem ter perdido familiares por conta da Covid-19, outros podem ter sofrido uma queda repentina no padrão de vida; e todos os sentimentos atrelados a esses acontecimentos precisam ser acolhidos, antes de iniciar-se uma corrida contra o tempo para recuperar o aprendizado perdido em 2020.

A escola, que sempre foi um lugar de resolução de conflitos, como fatalidade do cotidiano do aluno, violência e bullying, agora, mais do que nunca, precisa estar aberta para o diálogo. Para isso, será preciso flexibilizar a rotina para incluir rituais de acolhimento, a fim de resgatar o vínculo entre o aluno e escola, assim como para amenizar a ansiedade atrelada a volta às aulas presenciais.

Essa é a oportunidade de colocar em prática uma das 10 Competências Gerais a serem desenvolvidas ao longo da educação básica, de acordo com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular): a empatia. Tal competência será fundamental para criar espaços de compartilhamento, onde alunos e professores possam falar de seus sentimentos e refletir sobre as mudanças ocasionadas pela pandemia. Só assim será possível criar narrativas sobre os obstáculos e superações vivenciadas no período de isolamento social.

Mais do que ser o responsável por repor todo o conteúdo pedagógico, o professor vai precisar dar voz aos alunos, por meio de rodas de conversa, atividades de expressão como produção de textos. Esse também é o momento de abordar questões como a ansiedade e a depressão e compartilhar estratégias para adquirir a habilidade de autoconsciência de seu estado emocional, como por exemplo a prática de meditação e movimentação consciente.

O estabelecimento das novas regras de convivência e higiene, assim como a reorganização da dinâmica escolar, horários e ritmo de aula será outro desafio encarado pelos educadores, até que os alunos estejam habituados à sua nova rotina.

Para cuidar, é preciso ser cuidado

O professor também precisa ser “abraçado”, nesse momento inicial de volta gradual à sala de aula. É preciso cuidar da sua própria saúde mental, em primeiro lugar, para que possa acolher seus alunos.

Mesmo antes do aparecimento do novo Coronavírus, os profissionais da Educação já sofriam de problemas que foram intensificados pelos desafios impostos pela pandemia. Alguns estudos apontam que a síndrome de “burnout”, termo inglês que se refere ao esgotamento físico e mental causado pelo trabalho, já acomete os professores há anos.

Em uma pesquisa realizada pela associação Nova Escola em 2019, dos cinco mil docentes entrevistados, 60% se queixam de sintomas de ansiedade, estresse e dores de cabeça, e 66% já sofreram com fraqueza, incapacidade ou medo de ir trabalhar. De todos os participantes, 87% acreditam que os problemas de saúde são decorrentes ou intensificados pela profissão.

Outro estudo realizado pelo Instituto Península ao longo de 2020 – “Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil” – revelou que os docentes estavam mais ansiosos no início da pandemia, em março, do que no mês de novembro. Mas ainda no final do ano letivo, 58% deles afirmaram estar ansiosos e 53% se sentiam cansados.

Por isso, o acolhimento ao educador deve ser bem planejado, e a iniciativa deve partir da escola ou das secretarias de Educação. Assim como se organizaram para implementar o ensino remoto, agora as instituições precisam se preparar para receber novamente seu corpo docente.

Além dos cuidados com a saúde, é importante que a escola pense em novos meios de suporte para os professores, como a formação de grupos de apoio à saúde mental, presencial ou à distância, via aplicativos de mensagens.

Independente do formato escolhido para o retorno das aulas, é fundamental que a escola mantenha uma comunicação transparente, mostrando que está preparada para a retomada e proporcionando apoio emocional à toda a comunidade escolar .