A potência do brincar para o desenvolvimento integral das crianças

Por Israel Boniek

O brincar é o grande instrumento de apropriação do conhecimento das crianças, ou seja, uma criança se constrói enquanto brinca. Brincar é um instinto inerente em todo o reino animal. A evolução fez com que o brincar se tornasse uma característica permanente, que nos permite – desde a infância – treinar nossas habilidades físicas, sociais e emocionais. Habilidades que serão essenciais para toda a vida e para viver de forma plena e significativa. Brincar permite-nos, entre outras coisas, criar relações de qualidade, ensina-nos a gerir emoções e a definir limites seguros.

Por outro lado, a privação do brincar é um grande problema, muitas vezes despercebido na nossa sociedade. Segundo Steve Keil, no Manifesto pelo brincar: “…nós desenvolvemos uma maior maturidade emocional e uma melhor habilidade de tomar decisões se brincarmos mais e a maioria dos sistemas educacionais acreditam de forma equivocada que o oposto do brincar é o trabalho. Não! O oposto de brincar é a depressão“, portanto, difundir a cultura do brincar é fundamental para nossa sobrevivência e para nossa felicidade. Para Steve, o ato de brincar expõe a criança à várias situações que estimulam habilidades para a vida.

Fazendo conexões através do brincar

Somos seres sociais e desde a primeira infância precisamos de calor humano e de conexões. Estudos sobre a felicidade revelam que ter relacionamentos de qualidade é o principal fator para uma vida feliz, portanto, brincar é uma das maneiras mais criativas que a evolução encontrou para nos conectar com nossos pares e nutrir um sentimento de pertencimento. O brincar nos ajuda a construir o nosso maior recurso, que é o nosso capital social, e nos ajuda ainda a construir comunidades sustentáveis ​​e lúdicas, algo fundamental em uma sociedade que, neste período histórico, mais do que nunca, precisa recuperar a confiança no outro.

Brincar nos ajuda a nos sentir bem

“Brincar é coisa de criança!” Isso é o que a maioria dos adultos pensam, mas essa é uma mensagem errada. O brincar é uma força tremendamente poderosa que molda nossa vida desde cedo e, quando voltamos a vivê-la, nos permite escapar de uma lógica cinzenta e utilitarista. As crianças sabem bem disso, dizer sim ao instinto de brincar é abrir mão do controle e nos entregar à vida como ela é, saborear a variedade e a diversidade, é redescobrir nossos talentos e experiências vivas de conexões irrepetíveis.

O brincar é a possibilidade de encontro

 Vivemos um momento histórico em que o distanciamento e a dificuldade de viver bem se tornaram a norma, em que a sensação de desamparo parece uma realidade insuperável, por isso devemos nos lembrar do ditado que diz que “quando a vida te traz limões, devemos fazer uma limonada!”, e que para isso, para não sucumbir à tempestade, precisamos aprender a começar a dançar com o vento. O brincar é uma oportunidade de encontro consigo mesmo e com os outros, que não precisa mais do que um convite e um dizer “Sim”. Para fazer isso, no entanto, é preciso apenas silenciar nossa vaidade racional por um tempo, afinal: “Nós não rimos porque estamos felizes, estamos felizes porque rimos”.

A importância do brincar para o crescimento da criança

A aprendizagem através da brincadeira é uma das formas mais importantes de fomentar o desenvolvimento da criança. A brincadeira é uma atividade na qual as crianças mostram sua extraordinária capacidade de exploração, imaginação e tomada de decisão, mesmo que o tipo de brincadeira em que as crianças se envolvem e seu propósito mudem ao longo do seu desenvolvimento.

 Ao brincar, a criança aprender a controlar suas emoções, a reduzir o comportamento impulsivo e o estresse, e desenvolve empatia e senso de justiça à medida que aprendem a brincar com outras crianças.

 Quanto ao aspecto cognitivo, quando a criança brinca individualmente e com outras pessoas, suas habilidades cognitivas, como pensar, lembrar, aprender e prestar atenção, são aprimoradas, pois as crianças são expostas a situações onde necessitam desenvolver habilidades para resolver problemas, usando o poder da imaginação e da criatividade, além da concentração, tenacidade e resiliência.

 O processo educacional na infância se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a da criança e a do professor, duas pessoas que brincam juntas. Para que isso aconteça, é fundamental que os sujeitos envolvidos no processo sejam deslocados de um estado onde não são capazes de brincar para um estado de que é capaz, reconhecendo ainda a brincadeira como um estado universal, que é próprio da saúde, ou seja, o brincar facilita o crescimento e, portanto a saúde, pois o brincar conduz aos relacionamentos saudáveis.

O brincar e a educação infantil

 Na educação infantil, podemos chamar de desenvolvimento, uma forma altamente especializada do brincar, que está a serviço da comunicação da criança consigo mesma e com os outros, ou seja, brincar é mais do que se expressar, o brincar leva ao encontro de si mesmo.

 Por fim, podemos elencar muitos benefícios do brincar, dentre eles, os estímulos às competências, o desenvolvimento da atenção e da concentração, o aprimoramento das manifestações e expressões verbais e corporais, a criatividade, o desenvolvimento do respeito às regras, a afetividade, a felicidade, o autoconhecimento e a superação, mas o mais importante é ressaltar que o brincar tem um valor em si mesmo, e que devemos permitir que as crianças nos ensinem como é  fazer educação através do brincar.

Precisamos focar em uma educação que não seja produzida a partir de interesses dos adultos, mas que tenha uma relação de respeito com a infância, que busque composições através de práticas que provoquem a imaginação e a criatividade e promovam novas formas de existência e novos mundos possíveis, afinal, a infância não pode se resumir a um período ou uma fase esmagada no tempo, ela nunca deve acabar, ao contrário, deve se espalhar pela vida toda, através da potência do brincar.

Israel Boniek é escritor e diretor do Instituto Infâncias. Doutor em Educação, pós-graduado em Psicanálise e em Neuroeducação, com atualização em Neuropsicologia da memória. Possui estágio em Educação Infantil na Inglaterra e Reggio Emilia, na Itália, onde foi certificado pelo Internacional Program Reggio Emilia Approach.