A importância de trabalhar as Artes entre outras disciplinas

A interdisciplinaridade é um conceito amplamente debatido e compreendido como importante na vida escolar. Assim, os conhecimentos trabalhados na escola não existem de forma isolada, e esse entendimento contribui para o desenvolvimento de aulas mais dinâmicas e produtivas. Um dos exemplos é a disciplina de Artes, que surge como um ponto de ligação entre diversas disciplinas.

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“O benefício maior [da interdisciplinaridade] é que o mundo não é disciplinar. O ser humano aprende de múltiplas formas. Um conteúdo nunca se reduz a sua aplicabilidade imediata. Você traz os conteúdos da escola para o cotidiano real da vida do aluno”, explicou Mayco Martins Delavy, orientador pedagógico das turmas de 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental do Colégio Medianeira, de Curitiba. 

Além disso, a expressão artística do ser humano, em suas diferentes formas, permite deliberar em torno de conceitos trabalhados durante todo o Ensino Fundamental.

 “A arte, em um sentido amplo, faz parte da cultura. E o aluno tem acesso à arte sem necessariamente trabalhar isso na escola. Primeiramente, isso exige de todos os profissionais da escola um conhecimento cultural. Eu, como professor de Matemática, por exemplo, não posso me reduzir a ensinar a Matemática apenas por ela mesma. Um segundo elemento é trazer para o campo da escolarização básica, formas simbólicas que dialoguem com o universo do estudante”. 

Entretanto, as Artes não se limitam a serem temas complementares das outras disciplinas. Nesse sentido, o orientador destaca a via de mão dupla existente, em que a arte, por si só, possui suas particularidades.

 “A arte é um campo do saber. Tem metodologia específica e objetivos de aprendizagem, como qualquer outro componente. Então você não pode dizer apenas que a arte está em tudo, pois com isso você abre mão de um campo do saber. O professor de Artes precisa ser respeitado”, destacou Mayco Delavy.

Colocando em prática

A relação direta das Artes com os mais variados campos da ciência possibilita a realização de tarefas que fazem com que o aluno coloque a mão na massa. Com isso, sua capacidade criativa é exercitada, ao mesmo tempo que alguns conceitos vão sendo explorados. 

Uma maquete em Geografia, por exemplo, um desenho geométrico em Matemática, uma música em Língua Portuguesa. As opções são muitas. Bruno Bueno, professor de Física do Colégio Marista Anjo da Guarda, optou por obras de pintura e escultura para aplicar aos alunos alguns conceitos de ótica.

O início do trabalho com os alunos aconteceu logo depois uma conversa despretensiosa com a professora de Artes, Gizele Bettega Teixeira. “A ideia surgiu, assim como a maioria dessas ideias, em uma conversa no cafezinho. Conversando com a professora, comentei que iniciaria o trabalho com ótica. Então, ela disse que tinha uma artista que trabalhava com sombras de uma forma muito diferente”.

Assim, pós a troca de figurinhas, o trabalho foi aplicado nas turmas de 8º ano do Ensino Fundamental. De acordo com o professor, o projeto consistiu em duas frentes principais: a parte artística e os conceitos físicos. 

Foram estudados artistas como Kumi Yamashita, Michel Ocelot e Mary Temple. “Os alunos tiveram que desenvolver um trabalho de silhuetas. A obra de arte em si, apareceria após a incidência da luz em um determinado ângulo e, como consequência, pela formação da sombra”, explicou Bueno.

Obra de Mary Temple foi utilizada em trabalho interdisciplinar sobre ótica. A arte no ensino interdisciplinar
rtista estadunidense Mary Temple utiliza das sombras em suas pinturas, esculturas e fotografias. Etienne Frossard/MaryTemple.com

Simultaneamente à execução da parte artística, os alunos estudaram os princípios fundamentais da ótica e a formação de sombra e penumbra, para que pudessem aplicá-los e observá-los na obra. 

Além de uma obra artística autoral, os estudantes entregaram um relatório de observação, em que relacionaram a obra com os fenômenos físicos aplicados ou observados. 

“O trabalho interdisciplinar em qualquer condição que seja aplicado é extremamente rico para o processo de aprendizagem. Além de enriquecer a proposta, ele ajuda a desmistificar o conceito de que cada matéria é independente”, destacou o profissional.

Engajamento conjunto

Por fim, a aplicação da arte como elemento de aprendizagem causa um maior envolvimento da turma. “De um modo geral, toda vez que mais de uma componente curricular é incluída em um projeto, há um maior engajamento por parte dos alunos”, afirma Bruno.

O sucesso desse tipo de atividade se deve a dois fatores. Primeiramente, pela representatividade que o projeto apresenta, mostrando que não há disciplinas isoladas no ‘mundo real’. Em segundo lugar, pela afinidade dos alunos por assuntos diferentes. Correlacionado diferentes áreas é possível atingir pessoas com aptidões e afinidades diferentes em um mesmo projeto”, completou.

Confira alguns conceitos físicos/matemáticos que podem ser abordados do ponto de vista artístico:

  • Proporção/Escala (Matemática), por meio de representações e esculturas;
  • Formação de cores (Física), através das Artes Plásticas;
  • Geometria, também por meio das Artes Plásticas;
  • Acústica/Ondulatória, com ajuda da Música;
  • Perspectiva e Simetria, pelas Artes Plásticas.