Aprendizagens da escola em tempos de pandemia

Júlio Furtado

Já é tempo de começar a registrar as lições aprendidas e arrumar a casa, quer dizer, a escola para quando for possível tirar as máscaras e receber todos os alunos de uma só vez. A máxima de que a escola não será mais a mesma não pode se tornar apenas uma frase de efeito e como sabemos que há uma forte tendência de as coisas voltarem a ser como sempre foram, precisamos ter clareza dos processos e ações que precisam ser repensadas de forma que as aprendizagens da escola em pandemia tornem-se realidade.

A primeira e mais evidente delas refere-se a uma lição que há décadas nos é ensinada, mas que insistíamos em não aprender: a tecnologia precisa ser incorporada ao cotidiano da escola como instrumento de aprendizagem. A pandemia foi contundente com relação a essa questão e observamos que esse quesito é o mais citado por professores quando perguntados sobre qual será o maior legado da pandemia para a educação. A súbita aprendizagem com relação aos aplicativos que possibilitam as aulas remotas, com ferramentas que visam ampliar o engajamento dos alunos e com softwares de produção de vídeos e podcasts ampliou sobremaneira a visão dos professores a respeito das muitas possibilidades de atividades de aprendizagem. Como já disse Einstein, “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.

A grande aprendizagem relacionada à inserção da tecnologia no fazer docente é ir além da compulsão do uso e manter o foco na sua prática contextualizada. Isso, certamente, exigirá formação continuada em serviço. 

Com o retorno das aulas presenciais em plena pandemia e com a impossibilidade de se ter todos os alunos em sala de aula de uma só vez, o ensino híbrido veio selar a importância da tecnologia e legitimar sua utilização de forma contínua. Faltava à escola essa inserção no contexto híbrido, uma vez que ele é sinal antropológico e social de evolução em diversas áreas a começar pela própria natureza que nos oferece animais híbridos de grande importância econômica e pela Genética que já nos garante espécimes vegetais mais resistentes e nutritivas, adaptadas às novas condições de climas, solos e biomas.

O hibridismo já é realidade na indústria automobilística e de eletrodomésticos e já foi fortemente incorporado por alguns serviços como o bancário, que se transformou nas últimas décadas para se adequar à falta de tempo de se ir às agências bancárias. As agências físicas continuam a existir, mas sua função foi claramente ressignificada e a importância dos aplicativos de celular cresce a cada dia. Chegou a hora do hibridismo chegar à escola com a nobre missão de ressignificá-la.

O foco do Ensino híbrido é a possibilidade das crianças e jovens aprenderem de forma personalizada com real respeito às suas diferentes características, ritmos e preferências e esse deve ser o foco na mudança da ação docente. O professor passa a ser o autor/diretor do roteiro da aprendizagem. Nessa função, o docente precisa compreender o fluxo da aprendizagem no ensino híbrido que é instigar, sedimentar e aprofundar. A instigação cognitiva consiste em ativar a curiosidade, o interesse pelo assunto a ser aprendido e, em geral é realizada nos momentos presenciais como forma de engajar os alunos nas atividades remotas que terão como função, sedimentar o conteúdo.

A sedimentação da aprendizagem deve ser concluída nos momentos presenciais através de atividades grupais e individuais. É nesse momento que a personalização da aprendizagem ocorre. O aprofundamento deve ocorrer tanto nos momentos presenciais quanto nos momentos remotos, sempre através de atividades grupais/individuais com acompanhamento do professor. Como autor/diretor desse roteiro, o professor reúne atribuições como fazer curadoria de conteúdos e planejar as trilhas de aprendizagem, tendo em vista as fases instigar, sedimentar e aprofundar.

O ensino híbrido vai exigir nova configuração das salas de aula, além da presença constante da tecnologia, de preferência em classe, modelo que se mostra mais eficaz do que a configuração em laboratórios. Além de novas configurações físicas, a ação docente é o elemento essencial para que o ensino híbrido realmente funcione e essa ação passa a ser muito mais de acompanhamento e reforço do que de ensino expositivo. Essa aprendizagem talvez seja a mais urgente de todas: capacitar os professores para essa nova forma de ação.