Aprender brincando: por que é importante brincar na escola?

Por Brink Mobil

Para nós, da Brink, brincar é coisa séria. Afinal, acreditamos que a brincadeira e a aprendizagem devem caminhar juntas. Aprender brincando é aprender com prazer, é aprender melhor.

A pandemia deixou nossas crianças longe da escola e de seus colegas por mais de um ano, assim como o isolamento social as impossibilitou de brincar com outras crianças. No entanto, mesmo antes da Covid-19, a insegurança das ruas nos centros urbanos já levava as crianças cada vez mais dentro de casa ou para espaços que não potencializam as oportunidades de brincar em grupo e aprender novas brincadeiras.

A cultura do consumo, assim como o incremento da indústria de brinquedos e jogos eletrônicos e a influência da propaganda, contribuíram para o desaparecimento de algumas brincadeiras tradicionais. A cultura consumista em que estamos inseridos disseminou o valor do ter, e as crianças acabaram incorporando esse comportamento em relação à posse de brinquedos.

Mas é fato que elas continuam tendo a necessidade de brincar e se relacionar com seus pares. O lado lúdico da criança faz parte da sua essência, pois é o que mantém viva a sua espontaneidade. Por isso, ela não pode ser privada dessa vivência, especialmente na escola, onde passa grande parte de seu tempo.

Brincar pra quê?

O ato de brincar faz parte da cultura lúdica, é um patrimônio preservado e transmitido pelas crianças, passando de geração para geração. Muitas brincadeiras coletivas se espalharam pelo Brasil a partir do século XIX, com a chegada de imigrantes no país, que, além dos diferentes costumes, trouxeram as cantigas de roda e as adivinhas, que foram incorporadas pelas crianças brasileiras. Nessa época, também chegaram ao país brinquedos como bolas de gude, soldadinhos de chumbo, espadas e bonecas de porcelana; e mais ao final do mesmo século, nossas crianças tiveram contato com a bicicleta, carrinhos e trens de metal e bonecas de madeira.

Originadas do folclore, das festas culturais, da religião ou de lendas ou mitos populares, as brincadeiras tradicionais tais como o pega-pega, o passa-anel, o cabra-cega, o esconde-esconde e a amarelinha ensinaram as crianças a brincar juntas, construir o mundo à sua maneira e dar novos significados aos objetos.

Por meio da brincadeira, os pequenos fazem a intersecção de dois mundos: o interno, subjetivo, que corresponde aos desejos e às emoções, e um mundo externo, que é objetivo, lógico, real. Ou seja, a criança imagina e fantasia, mas ao mesmo tempo, mantem-se em contato com a realidade. E é nesse espaço, entre esses dois mundos, que acontece a aprendizagem.

Na brincadeira de faz de conta tudo é possível! Essa possibilidade de criar aproxima-se da arte, de acordo com Vygotsky, tendo em vista que a atividade artística permite que se crie um mundo às avessas para melhor compreendê-lo. É isso que a criança faz quando brinca transformando materiais, assim como a própria realidade.

Nesse sentido, a brincadeira também é fundamental para o desenvolvimento cognitivo da criança, uma vez que o processo de vivenciar situações imaginárias leva a criança ao desenvolvimento do pensamento abstrato, quando novos relacionamentos são criados entre significações e interações com objetos e ações.

Nesse mundo acelerado, que valoriza mais o resultado do que o processo, o brincar oportuniza a entrega total a uma atividade sem pensar em mais nada e, por isso, também revitaliza a nossa capacidade de concentração. Brincar é uma atividade que tem um fim em si mesmo, porém, consequentemente estimula o desenvolvimento motor, social e emocional das crianças. Brincar serve para dominar angústias e assimilar emoções e sensações, especialmente quando se trata de brincar em grupo.

Quando falamos em brincar, logo pensamos na Educação Infantil. Mas as atividades lúdicas não precisam ficar restritas à essa fase de ensino. As formas de brincar se transformam – das brincadeiras simbólicas (de faz de conta), a preferência das crianças vai se transferindo para os jogos com regras explícitas, no Ensino Fundamental.

Vamos brincar juntos?

A origem da palavra brincar vem de “vínculo”. Ou seja, a brincadeira está diretamente ligada à criação de laços com o outro. As interações com outras crianças favorecem a superação do egocentrismo, desenvolvendo a solidariedade e a empatia.

Nas brincadeiras que acontecem de forma coletiva, reproduzimos experiências vividas em nosso cotidiano, que por sua vez, é regido por regras sociais e normas de conduta moral. Brincadeiras de casinha, boneca, escolinha, lojinha; são todas representações do mundo adulto.

Toda brincadeira tem regras, sejam elas explícitas ou implícitas. E a imposição de regras não anula o caráter lúdico do brincar, uma vez que a criança pode mudar as normas ou se ausentar delas quando quiser, encarando as consequências desse ato. Brincando em grupo, aprende-se a respeitar o direito do outro, a lidar com perdas e ganhos, a identificar a liderança, a compartilhar.

Sendo evidente a importância de vivenciar a ludicidade na infância, é preciso conscientizar pais, educadores e sociedade a valorizarem essa prática. Isso significa levar a brincadeira para a sala de aula e preparar os professores para propor, orientar e interpretar a brincadeira, assim podendo utilizá-la para aprimorar a prática pedagógica.  

Brincando na escola

A escola pode e deve incluir a brincadeira no dia a dia dos alunos, por mais transgressor que isso seja, em relação aos objetivos tradicionais das instituições de ensino. Brincar é um dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento previstos pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Portanto, cabe à escola, estimular a conservação e a recriação da brincadeira, dos brinquedos e dos jogos como patrimônio cultural da humanidade, não só para cumprir seu papel de agente cultural, mas também para garantir o direito ao brincar, como uma dimensão fundamental da infância.

Ao invés de enxergar a brincadeira como improdutiva, oferecendo apenas momentos pontuais para brincar, a escola pode trazer a ludicidade para o seu cotidiano, dentro da sala de aula, como um instrumento para tornar o aprendizado uma experiência instigante e atraente.

E isso também não significa que é preciso brincar ou jogar o tempo todo, que todo conteúdo curricular deve ser inserido em um jogo. As crianças também desejam – e precisam – dos momentos não lúdicos, com regras claras e consistentes. No entanto, esses momentos também podem ser permeados pelo desejo de saber, a vontade participar e superar os próprios limites, especialmente se forem despertados anteriormente, em uma aula lúdica.

Ao planejar uma atividade lúdica, o educador deve estar ciente das características inerentes ao brincar – atividade criativa, imprevisível, não centrada na produtividade. Ao professor, cabe não só organizar o ambiente escolar para proporcionar um espaço seguro para a brincadeira, mas, acima de tudo, desenvolver uma consciência que valorize o brincar. Uma aula lúdica é sobre criar momentos para as crianças brincarem, brincar com elas e até mesmo ensiná-las a brincar.

Nesse momento, é que o professor tem a possibilidade valiosa de observar a criança enquanto brinca e tirar proveito dessa ocasião para definir suas propostas de trabalho. Durante a observação da brincadeira, se mostram as competências de cada um, as habilidades psicomotoras, seu comportamento social com os demais, seu grau de iniciativa, criatividade, autonomia, colaboração; assim como a forma como constrói o conhecimento, a partir de análise do raciocínio e argumentação de cada criança.

Por trás de selecionar, planejar e propor uma atividade lúdica, já existe uma intencionalidade; o educador tem a consciência dos objetivos em relação ao desenvolvimento e à aprendizagem de seus alunos. Por isso, brincar nunca será uma atividade improdutiva, meramente recreativa, como já afirmava Albert Einstein: “Brincar é a mais alta forma de pesquisa”.