Letramento matemático: a importância da matemática lúdica no Ensino Infantil


Por Ana Ruth Starepravo

Você já deve ter ouvido falar em Letramento Matemático, mas você sabe o que significa e qual a sua importância na Educação Infantil?

O termo letramento se refere ao estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce práticas sociais que usam a escrita. Nesse sentido é possível ter um certo nível de letramento, mesmo não tendo sido alfabetizado. Muitas são as crianças capazes de ditar uma história com começo, meio e fim e até usando elementos narrativos elaborados, mesmo sem saber ler e/ou escrever, não é mesmo?

No campo da matemática o letramento ou numeralização aponta para uma familiaridade com os números e para habilidades que capacitam as pessoas a responder às demandas matemáticas do seu dia-a-dia.

Nessa perspectiva, os conteúdos curriculares explorados na escola devem dar à criança a oportunidade de construir um conhecimento matemático que lhe permita compreender melhor o mundo no qual ela vive e atuar sobre ele usando as ferramentas oferecidas pela matemática.

Mas nem sempre a escola faz isso. Numeralizamos somente quando compreendemos a educação como um processo que visa o desenvolvimento da autonomia e que não se dá por meio da transmissão de saberes, mas sim numa construção ativa por parte de um sujeito que conhece na medida que é capaz de tecer uma rede de significações. Na prática, isso pode se traduzir num ensino mais conceitual do que procedimental, ou seja, precisamos investir mais em discussões sobre ideias matemáticas na escola do que na repetição de procedimentos forma mecânica.

Um bom caminho para isso é trabalhar a matemática de forma mais lúdica. Uma matemática lúdica é aquela que segue os interesses e a curiosidade das crianças, que coloca o pensamento delas em ação por meio de brincadeiras, de desafios, de jogos. Lúdico é um processo de ensino que não dá spoilers, ou seja, que não tira das crianças o prazer inigualável da descoberta.

Brincando com ideias matemáticas as crianças acabam fazendo descobertas incríveis e formulando explicações muito interessantes. Para isso, precisamos romper com a crença de que as crianças só aprendem matemática quando estão fazendo atividades no papel. Essas, muitas vezes, servem apenas para treinar procedimentos. Conversas sobre números e/ou situações matemática variadas propiciam contexto riquíssimo de ensino e de aprendizagem.

Se você registrar alguns números de magnitudes bem diferentes na lousa, como por exemplo: 2015; 645; 1.000.000; 7 e 36 e apresentar algumas perguntas como as que seguem, para crianças de 5 ou 6 anos, poderá se surpreender com a riqueza das respostas:

– Vejam esses números que eu registrei aqui. Um deles corresponde ao número de crianças que estavam na festa de aniversário da minha sobrinha. Qual deles vocês acham que é esse número? Como vocês pensaram para decidir?

– Um desses números corresponde à idade do meu filho. Apontem dois dos números registrados que vocês acham que não poderiam indicar, de jeito nenhum, essa idade. Como vocês pensaram para fazer essa escolha?

– Se você pudesse escolher uma quantia de dinheiro para receber num prêmio. Qual desses números gostaria que representasse essa quantia? Por que?

Note que, numa proposta como essa, não estamos esperando respostas corretas, mas colocando o pensamento das crianças em ação e incentivando-as a usar os conhecimentos construídos em seu cotidiano para fazer escolhas. Mais importante do que as respostas em si são os argumentos que elas constroem para justificar essas escolhas.

Brincar com a sequência oral dos números pode também propiciar muitas aprendizagens. Recitar uma série numérica é uma habilidade que as crianças desenvolvem muito cedo e não é incomum ver crianças por volta dos dois anos de idade “contando” até o dez, mesmo que omitindo alguns elementos desta série.

Se os adultos que interagem com uma criança realizam contagens diante dela ou até mesmo para ela, é muito provável que essa criança imite-os em suas brincadeiras, contextualizando o recitado para situações específicas e aquilo que começa como um ato lúdico, realizado muitas vezes pelo puro prazer que encontram na sonoridade daquela série de palavras, vai se constituindo, aos poucos, em algo que lhes servirá como ferramenta mais tarde, além de possibilitar a observação de regularidades do nosso sistema de numeração.

Para concluir, destaco a importância de colocar a resolução de problemas como ponto de partida para o trabalho com a matemática na escola. É necessário rompermos com a ideia de que aprendemos matemática para resolver problemas. É um equívoco, pois ela se pauta na premissa de que “primeiro se aprende, depois se faz”. Na escola isso se traduz em primeiro ensinar os algoritmos, as fórmulas (com foco na aplicação de regras preestabelecidas) e só depois apresentar problemas, para os quais se espera a “melhor” solução, pela aplicação dos algoritmos ensinados anteriormente. Aprendemos matemática resolvendo problemas. E só haverá de fato um problema a ser resolvido se aqueles que irão resolvê-lo não são capazes de identificar, de imediato, a melhor solução. Do contrário, trata-se – na melhor das hipóteses – de um exercício.

Há muitas formas de se propor problemas nas aulas de matemática: oralmente, por meio de uma gravura, através de uma tabela ou gráfico, através de um anúncio ou propaganda, usando uma situação real do cotidiano escolar (como por exemplo a distribuição de materiais, levantamento do custo de uma saída de estudos, formação de equipes de trabalho, etc.) e por meio de jogos, que além de apresentarem problemas genuínos, permitem o aprendizado num contexto lúdico e de muita interação entre as crianças.

O letramento matemático não é produto de uma instrução direta, mas uma forma de pensar matematicamente que se constrói quando as crianças são incentivadas a brincar com ideias matemáticas, levantar e testar hipóteses, resolver problemas, conversar sobre possíveis soluções para esses problemas, elaborar estratégias de cálculo, analisar diferentes procedimentos, enfim, quando são incentivadas a fazer matemática e não apenas reproduzir o que é feito pelas suas professoras ou professores.